O Aleijadinho - Antonio Francisco Lisboa

O Aleijadinho - Antonio Francisco Lisboa

Antônio Francisco Lisboa vulgo o Aleijadinho, filho natural do arquiteto português Manuel Francisco da Costa Lisboa e de uma escrava africana chamada Isabel, nasceu em Minas Gerais, no arrabalde de Bonsucesso, da cidade de Vila Rica - hoje Ouro Preto, a 29 de agosto de 1730.

A sua instrução, muito rudimentar, não foi além das primeiras letras aprendidas na infância e que ele procurou suprir com os conhecimentos práticos de desenho, arquitetura e escultura que lhe foram ministrados por seu pai.

Físicamente feio desde criança, pois era pardo escuro, baixo, entroncado, disforme, a Natureza fez dele um artista genial que, no seu tempo, não teve competidor em arquitetura.

Trabalhador infatigável, dotou de obras-primas as principais igrejas de Minas Gerais, retirando dai fartos proventos, que malbaratou numa vida de dissolução e de prazeres. Em 1777, aos 47 anos de idade, já pai de um filho natural que recebeu o nome de Manuel, as moléstias começaram a minar-lhe impiedosamente o 

organismo debilitado, tornando-o um ente coberto de glórias mas sumamente infeliz.

Atacado de paralisias, perdeu todos os dedos dos pés, sendo obrigado a andar de joelhos; dos dedos das mãos, alguns atrofiaram e caíram, e outros acometidos de dores horríveis foram por ele cortados com o formão de trabalho, de modo que só lhe restaram os polegares e os indicadores; entortou-se a boca desdentada; os olhos inflamaram-se assustadoramente, dando-lhe ao olhar uma expressão sinistra; o seu todo adquiriu o aspecto de um monstro asqueroso e horrendo!

A natural repulsa dos que o viam, calando cada vez mais forte em seu espírito, tornaram-no intolerante, irascível e brutal para com todos, exceto as pessoas de sua intimidade, com as quais sempre se mostrou alegre e jovial.

A partir de então teve o cuidado de furtar-se aos olhares do povo, saindo de madrugada para o trabalho, executando a sua tarefa oculto por um toldo e regressando para casa quando já noite fechada.

Acompanhava-o em todos os passos seu escravo Maurício, hábil entalhador, que lhe adaptava às mãos imperfeitas os instrumentos de trabalho.

Foi esta ruína humana que o povo fez passar à história com o apelido de o Aleijadinho.

Antônio Francisco Lisboa não precisou sair de Minas Gerais para tornar-se o torenta e escultor genial que dotou a sua cidade natal de suntuosos frontispícios, de púlpitos, altares, tetos, lavabos, pórticos, arcos, volutas, cruzeiros, imagens, chafarizes e fontes admiráveis. E se é fato que algumas deficiências plásticas podem ser apontadas na vastidão das suas obras, a excepcional inspiração e o sentimento incomum que transparecem nos púlpitos, pórtico e lavabo da sacristia da igreja de São Francisco de Assis, de Ouro Preto, bastam para dar-lhe a imortalidade. Além desta igreja, ostentam a arte assombrosa, original e acentuadamente brasileira do incomparável estropiado mineiro: as capelas das Almas e de Nossa Senhora do Carmo, de Ouro Preto; a matriz e a capela de São Francisco, de São João del-Rei; as matrizes de São João do Morro Grande, de Sabará; a capela de São Francisco, de Mariana; os templos de Congonhas, de Campos, e de Santa Luzia.

A partir da data do seu infortúnio, o Aleijadinho deu um destino bastante nobre ao seu dinheiro, repartindo-o com o seu escravo Maurício e com os pobres.

Todos os seus biógrafos são unânimes em compará-lo a Miguel   ngelo, o famoso artista italiano que se vingou dos seus inimigos, fixando-os na célebre tela o Juízo Final, que figura na Capela Sistina, no Vaticano. "Há grande semelhança, diz um deles, entre as obras de Miguel   ngelo e do Aleijadinho, como algo na vida artística dos dois. Miguel Ângelo Buonarroti pintou os profetas, aleijadinho os esculpiu; Miguel  ngelo pintou o Juízo Final com seu inferno, Aleijadinho esculpiu no pórtico da igreja de São Bom Jesus de Matozinhos, em Ouro Preto, um anjo Gabriel de fino acabamento, encimando um inferno. Miguel  ngelo vingou-se do cardeal Biaggio Casana, que não queria as figuras nuas, pintando-o no inferno, roído por uma serpente; Aleijadinho também vingou-se do coronel José Romão, ajudante do capitão-general D. Bernardo de Lorena, que o chamava de feiúra de monstro, caricaturando-o na imagem de São Jorge, por ele esculpida para figurar na procissão de Corpus Christi, em Ouro Prêto. Miguel  ngelo era tido como um homem sinistro, solitário, tétrico, inimigo do gênero humano; Aleijadinho vivia da mesma maneira, privando unicamente com os seus escravos, indo para as suas obra: antes do nascer do sol e voltando quando este já se tinha ocultado. Miguel  ngelo, quando percebia alguém embaixo do seu andaime, fingia-se distraído, atirando-lhe pedras; o mesmo fazia Aleijadinho."

Não lhe faltaram, como acontece aos homens de gênio, críticos ferozes e ignorantes a descobrir lhe defeitos e imperfeições nas obras majestosas que esculpiu, esquecidos de que Antônio Francisco Lisboa nunca tivera mestres científicos; nada vira de artes, encerrado como ficara no estreito limite da sua capitania; e que a perda dos dedos das mãos não lhe permitia firmeza na execução dos trabalhos. A verdade, entretanto, é que ele soube suprir as suas imperfeições por meio de uma inspiração genial, profundamente religiosa, que confunde os seus gratuitos detratores e constitui "o marco inicial da emancipação da arte brasileira."

Antônio Francisco Lisboa faleceu em Ouro Prêto, no interior da igreja de São Francisco de Assis, a 14 de novembro de 1814, na idade avançada de 84 anos, sendo sepultado no mosteiro de Antônio Dias.

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