Gatilhos que evocam emoções

Gatilhos emocionais


Gatilhos que evocam emoções são situações de um instante que te remetem a outro instante que te abalou. O instante que ficou guardado na sua memória por todo o tempo, e que veio à tona pelo primeiro instante que pareceu se repetir ou que vai se repetir. Qualquer semelhança com aquele passado desagradável é motivo para perturbar a sua paz do momento presente. A impressão que se tem é a de que você terá que fazer de novo algo que não queria ter feito e fez, ou de estar em um lugar que não queria ter estado e esteve, ou de falar com quem não queria ter falado e falou, assim, sucessivamente. 

Gatilhos que evocam emoções são sinais de que a coisa não está resolvida, perdoada, abandonada e que lateja sutilmente guardado em algum arquivo perdido do cérebro. Vou te falar, é uma sensação de completa impotência, de submissão a si mesmo, de estar levando uma vida totalmente diferente da que queria estar. Talvez possa-se afirmar que milhões no mundo passam por isso.  

Gatilhos que evocam emoções são compreendidos apenas por quem é sensível, já viveu situação desconfortante e não quer que se repita. 

Eu tenho gatilhos que evocam emoções e estão intimamente ligados à figura do meu pai. Homem extremamente rigoroso (até hoje não entendo o por que de tanto rigor), exigente com os outros, com ele mesmo, uma vida paranoica que respingava em mim e que acabou absorvida, fazendo-me viver situações dele que não me cabiam e que herdei sem querer. 

Gatilhos que evocam emoções é um caso sério que merece atenção médica, social, apoio familiar, porque na hora que o gatilho dispara aquela emoção reprimida, ela surge como um vulcão que explode chamas de emoções incontroláveis, porque não se sabe qual é a memória que está reavivada causando o destempero emocional. 

Talvez não fosse tão cruel se a pressão não subisse ou caísse tão bruscamente, a boca não secasse, o frio interno do peito e extremidades como mãos e pés não te assustasse, o não poder gritar com alguém do seu lado para poder apenas desabafar, já que o alguém do seu lado nem sabe o que realmente está se passando com você, porque não viveu o que você viveu e por isso não sente o que você sentiu.

Como se não bastasse, sente-se a necessidade de autocontrole, pois no fundo, a vítima dessa memória indesejada, sabe o que está acontecendo - um instante de merda - que vai passar, se não for sufocada por um monte de gente dizendo "não fica assim", "respira", "quer uma água", ou pior, pensamentos que se amontoam sobre o que os outros estão pensando, se no mínimo podem ser compreensivos com o instante sem te julgar, sem pensar: "se fosse comigo, eu não reagiria assim". "Que covarde" "que fracote". Sim, tudo isso passa pela cabeça de quem está vivendo uma crise emocional. 

O que se quer é o super poder do Dr. Estranho, para voltar no tempo e resolver aquela situação vivida e não resolvida. É ter dito não, quando disse sim, é ter desferido um soco na cara da pessoa e ao invés disso deu um trago no cigarro ou um gole na bebida ou simplesmente se calou. É o ódio de si mesmo por agora não poder fazer nada. É a vontade reprimida de ter mandado tomar no cu e ter ficado em silêncio, porque era politicamente correto. 

Gatilhos que despertam emoções não precisam de juízes, precisam de tempo, silêncio, ausência, reflexão e principalmente coragem e aceitação de ter perdido. É preciso apagar aquela lembrança da memória. 

Gatilhos que despertam emoções desnudam a imagem que se tem de si mesmo diante de um público enorme, ensandecido, excitado por carnificina espiritual. Estar sobre este palco com todos os holofotes apontados para você e assistido por milhões de loucos, cada um com seu desejo de aplaudir o despedaçar da sua alma é a apresentação mais corajosa que alguém pode fazer. 

Gatilhos que despertam emoções é o estupro da alma, que dói muito mais se também teve o estupro do corpo. 

Que este desabafo faça você saber que não está sozinho nessa.

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