O Tempo no Mesmo Lugar em Épocas Diferentes
![]() |
| A vida não consiste em tornar-se algo. Consiste em revelar aquilo que sempre fomos. |
Esta história nasceu de uma reflexão sobre o tempo, o ego, a essência humana e a passagem da vida. Em uma cabana imaginária, dois homens conversam enquanto observam o crepúsculo. Ao longo da noite, descobrem que algumas das maiores verdades não precisam ser construídas, apenas reveladas.
Um diálogo sobre o tempo, o ego e a essência humana
Numa tarde em que o dia começava a recolher suas cores, dois homens sentaram-se à varanda de uma velha cabana.Um chamava-se Aurélio.
O outro, Baltasar.
Entre eles havia uma mesa de madeira marcada pelos anos.
Sobre ela repousavam pão, queijo, vinho e um antigo relógio de bolso que já não funcionava havia muito tempo.
Na parede, o retrato de uma mulher observava os dois em silêncio.
Aurélio serviu vinho nas taças e apontou para o relógio.
— Curioso como um relógio parado continua falando sobre o tempo.
Baltasar sorriu.
— Não fala sobre o tempo.
— Não?
— Fala sobre a própria limitação.
— Como assim?
— O relógio parou. O tempo não.
O vento atravessou a varanda.
Nenhum dos dois disse nada por alguns instantes.
Então Aurélio perguntou:
— Diga-me, Baltasar, o que é o ego?
Baltasar observou o vinho antes de responder.
— Uma correnteza.
— Apenas isso?
— Não. Também é areia movediça.
Aurélio riu.
— Como pode ser as duas coisas?
— Porque primeiro ele arrasta. Depois afunda.
O silêncio acomodou-se entre eles.
— E como escapar dele?
Baltasar voltou os olhos para as montanhas.
— Não lutando.
— Como alguém preso numa areia movediça?
— Exatamente.
O vento pareceu concordar.
Depois de algum tempo, Aurélio tornou a falar.
— Você já reparou nos rostos das pessoas?
— Todos os dias.
— Então sabe do que estou falando.
Baltasar assentiu.
— Há rostos que falam antes da boca.
— E há olhares que dizem mais que discursos inteiros.
— Sim.
— Por quê?
Baltasar demorou a responder.
— Porque a experiência costuma economizar palavras.
— E a arrogância?
— Costuma desperdiçá-las.
O sol aproximava-se do horizonte.
As sombras tornavam-se mais longas.
Aurélio observou a paisagem.
— Tenho uma estranha sensação.
— Qual?
— Ainda converso com o rapaz que fui aos vinte anos.
— Isso é bom.
— Também converso com o velho que imagino ser aos setenta.
Baltasar sorriu.
— Melhor ainda.
— Então sou três homens?
— Não.
— Não?
— É um homem só ocupando três épocas diferentes.
Aurélio permaneceu pensativo.
Como quem escuta algo que já sabia, mas nunca havia ouvido daquela forma.
Quando a primeira estrela surgiu no céu, os dois já estavam na terceira garrafa de vinho.
— Sabe qual é o momento mais bonito do dia? — perguntou Aurélio.
— Qual?
— Não é o pôr do sol.
— Não?
— Não.
— Então qual é?
Aurélio apontou para o horizonte.
— Este.
— O crepúsculo?
— Sim.
— Por quê?
— Porque é quando o barulho começa a silenciar.
Baltasar observou o vale.
Os pássaros haviam se recolhido.
As vozes distantes desapareceram.
Restavam apenas o vento, os grilos e o ranger discreto da madeira da varanda.
— Curioso — disse ele.
— O quê?
— Parece que surgiram novos sons.
Aurélio sorriu.
— Não surgiram.
— Não?
— Estavam aqui o tempo todo.
Baltasar permaneceu imóvel.
Ouviu o vento.
Ouviu os grilos.
Ouviu a madeira.
Ouviu a própria respiração.
— Então o silêncio não faz barulho.
— Não.
— O que ele faz?
Aurélio ergueu a taça.
— Revela.
— Revela?
— Como a água que remove a terra e deixa o ouro à mostra.
Baltasar observou a escuridão avançando sobre o vale.
— Então o silêncio não acrescenta nada.
— Não.
— Apenas retira o que escondia.
— Exatamente.
O vento atravessou a varanda.
Nenhum dos dois falou durante algum tempo.
Porque certas respostas precisam de espaço para pousar.
Já era noite quando Baltasar perguntou:
— E quando o dia se cala?
Aurélio respondeu sem hesitar:
— A noite fala.
O vento continuou seu assovio constante.
Horas depois, a conversa alcançou o tempo.
— O tempo é um vento — disse Baltasar.
Aurélio balançou a cabeça.
— Não.
— Não?
— O vento é apenas o som dele.
— Então o que é o tempo?
Aurélio pensou longamente.
— Um velho varredor.
Baltasar arqueou as sobrancelhas.
— Um varredor?
— Sim.
— Explique.
— Ele apenas move partículas de um lugar para outro.
Baltasar observou as próprias mãos.
— E nós?
— Somos as partículas.
A luz da lamparina iluminava o retrato da mulher na parede.
Baltasar apontou para ele.
— E ela?
— Quem?
— A mulher.
Aurélio sorriu.
— Ela observa.
— Quem é ela?
— A mãe.
— Sua mãe?
— A mãe de tudo.
Baltasar compreendeu.
Não precisava de mais explicações.
Já passava da meia-noite quando chegaram à questão mais difícil.
— O que é a essência? — perguntou Baltasar.
Aurélio pegou uma pequena pedra do chão e a colocou sobre a mesa.
— Imagine que dentro dela exista uma joia.
— Certo.
— O que precisa acontecer para que a joia apareça?
— A pedra precisa ser quebrada.
— Não.
— Não?
— Apenas desbastada.
Baltasar permaneceu em silêncio.
— Então a joia já estava lá?
— Sempre esteve.
— E a pedra?
— Apenas a escondia.
O vento continuava assoviando.
Talvez mais suave.
Talvez mais sábio.
Ninguém saberia dizer.
Então Baltasar perguntou:
— O que a joia deseja?
Aurélio observou a pedra sobre a mesa.
— Deixar de ser pedra.
— E a pedra?
— Nem sabe que é joia.
Os dois ficaram em silêncio por longo tempo.
Até que Baltasar voltou a falar.
— Passamos a vida enchendo uma carroça.
— Sim.
— Dinheiro.
— Sim.
— Títulos.
— Sim.
— Reconhecimento.
— Sim.
— Medos.
— Também.
— E se estivermos enganados?
Aurélio sorriu.
— Em quê?
— E se a vida não for encher a carroça?
— Continue.
— E se a vida for descobrir o que merece permanecer nela?
Aurélio ergueu a taça.
— Agora estamos nos aproximando.
O relógio parado continuava sobre a mesa.
A mãe continuava observando.
O vento continuava assoviando.
E a noite continuava falando.
Então Baltasar fez a última pergunta.
— E se desbastarmos tudo?
— Tudo?
— O ego.
— Sim.
— A vaidade.
— Sim.
— O orgulho.
— Sim.
— As máscaras.
— Sim.
— Os excessos.
— Sim.
— As explicações.
— Sim.
— As metáforas.
— Sim.
— Tudo.
Aurélio olhou para o relógio.
Olhou para o retrato da mãe.
Olhou para o céu.
Olhou para o vento.
E respondeu:
— Restará apenas aquilo que sempre esteve ali.
— O quê?
Aurélio sorriu.
Um sorriso antigo.
Sereno.
Como quem finalmente reconhece algo que procurou durante toda a vida.
E respondeu:
— Quem observa.
Baltasar permaneceu em silêncio.
Não porque não tivesse o que dizer.
Mas porque finalmente compreendeu.
A joia não precisava ser criada.
O ouro não precisava aprender a brilhar.
O silêncio não precisava produzir sons.
A essência não precisava ser construída.
Tudo aquilo já existia.
Precisava apenas ser revelado.
O vento continuou assoviando.
A noite continuou falando.
E a dança nunca parou.
Porque o vento nunca deixou de assoviar.
Temas abordados nesta reflexão
- O tempo e a passagem da vida
- A relação entre ego e essência
- O autoconhecimento como processo de revelação
- A sabedoria adquirida com a idade
- A observação como ferramenta de compreensão
- A filosofia estoica aplicada ao cotidiano

Comentários
Postar um comentário
Obrigado por seu comentário.