O Tempo no Mesmo Lugar em Épocas Diferentes

 

Ilustração filosófica mostrando o mesmo homem aos 20, 52 e 70 anos conversando à mesa com vinho e pão, sob o olhar de uma matriarca. A cena simboliza o tempo, a experiência, o autoconhecimento, a essência humana e a passagem das gerações.
A vida não consiste em tornar-se algo. Consiste em revelar aquilo que sempre fomos.

Esta história nasceu de uma reflexão sobre o tempo, o ego, a essência humana e a passagem da vida. Em uma cabana imaginária, dois homens conversam enquanto observam o crepúsculo. Ao longo da noite, descobrem que algumas das maiores verdades não precisam ser construídas, apenas reveladas.

Um diálogo sobre o tempo, o ego e a essência humana

Numa tarde em que o dia começava a recolher suas cores, dois homens sentaram-se à varanda de uma velha cabana.

Um chamava-se Aurélio.

O outro, Baltasar.

Entre eles havia uma mesa de madeira marcada pelos anos.

Sobre ela repousavam pão, queijo, vinho e um antigo relógio de bolso que já não funcionava havia muito tempo.

Na parede, o retrato de uma mulher observava os dois em silêncio.

Aurélio serviu vinho nas taças e apontou para o relógio.

— Curioso como um relógio parado continua falando sobre o tempo.

Baltasar sorriu.

— Não fala sobre o tempo.

— Não?

— Fala sobre a própria limitação.

— Como assim?

— O relógio parou. O tempo não.

O vento atravessou a varanda.

Nenhum dos dois disse nada por alguns instantes.

Então Aurélio perguntou:

— Diga-me, Baltasar, o que é o ego?

Baltasar observou o vinho antes de responder.

— Uma correnteza.

— Apenas isso?

— Não. Também é areia movediça.

Aurélio riu.

— Como pode ser as duas coisas?

— Porque primeiro ele arrasta. Depois afunda.

O silêncio acomodou-se entre eles.

— E como escapar dele?

Baltasar voltou os olhos para as montanhas.

— Não lutando.

— Como alguém preso numa areia movediça?

— Exatamente.

O vento pareceu concordar.


Depois de algum tempo, Aurélio tornou a falar.

— Você já reparou nos rostos das pessoas?

— Todos os dias.

— Então sabe do que estou falando.

Baltasar assentiu.

— Há rostos que falam antes da boca.

— E há olhares que dizem mais que discursos inteiros.

— Sim.

— Por quê?

Baltasar demorou a responder.

— Porque a experiência costuma economizar palavras.

— E a arrogância?

— Costuma desperdiçá-las.


O sol aproximava-se do horizonte.

As sombras tornavam-se mais longas.

Aurélio observou a paisagem.

— Tenho uma estranha sensação.

— Qual?

— Ainda converso com o rapaz que fui aos vinte anos.

— Isso é bom.

— Também converso com o velho que imagino ser aos setenta.

Baltasar sorriu.

— Melhor ainda.

— Então sou três homens?

— Não.

— Não?

— É um homem só ocupando três épocas diferentes.

Aurélio permaneceu pensativo.

Como quem escuta algo que já sabia, mas nunca havia ouvido daquela forma.


Quando a primeira estrela surgiu no céu, os dois já estavam na terceira garrafa de vinho.

— Sabe qual é o momento mais bonito do dia? — perguntou Aurélio.

— Qual?

— Não é o pôr do sol.

— Não?

— Não.

— Então qual é?

Aurélio apontou para o horizonte.

— Este.

— O crepúsculo?

— Sim.

— Por quê?

— Porque é quando o barulho começa a silenciar.

Baltasar observou o vale.

Os pássaros haviam se recolhido.

As vozes distantes desapareceram.

Restavam apenas o vento, os grilos e o ranger discreto da madeira da varanda.

— Curioso — disse ele.

— O quê?

— Parece que surgiram novos sons.

Aurélio sorriu.

— Não surgiram.

— Não?

— Estavam aqui o tempo todo.

Baltasar permaneceu imóvel.

Ouviu o vento.

Ouviu os grilos.

Ouviu a madeira.

Ouviu a própria respiração.

— Então o silêncio não faz barulho.

— Não.

— O que ele faz?

Aurélio ergueu a taça.

— Revela.

— Revela?

— Como a água que remove a terra e deixa o ouro à mostra.

Baltasar observou a escuridão avançando sobre o vale.

— Então o silêncio não acrescenta nada.

— Não.

— Apenas retira o que escondia.

— Exatamente.

O vento atravessou a varanda.

Nenhum dos dois falou durante algum tempo.

Porque certas respostas precisam de espaço para pousar.


Já era noite quando Baltasar perguntou:

— E quando o dia se cala?

Aurélio respondeu sem hesitar:

— A noite fala.

O vento continuou seu assovio constante.


Horas depois, a conversa alcançou o tempo.

— O tempo é um vento — disse Baltasar.

Aurélio balançou a cabeça.

— Não.

— Não?

— O vento é apenas o som dele.

— Então o que é o tempo?

Aurélio pensou longamente.

— Um velho varredor.

Baltasar arqueou as sobrancelhas.

— Um varredor?

— Sim.

— Explique.

— Ele apenas move partículas de um lugar para outro.

Baltasar observou as próprias mãos.

— E nós?

— Somos as partículas.


A luz da lamparina iluminava o retrato da mulher na parede.

Baltasar apontou para ele.

— E ela?

— Quem?

— A mulher.

Aurélio sorriu.

— Ela observa.

— Quem é ela?

— A mãe.

— Sua mãe?

— A mãe de tudo.

Baltasar compreendeu.

Não precisava de mais explicações.


Já passava da meia-noite quando chegaram à questão mais difícil.

— O que é a essência? — perguntou Baltasar.

Aurélio pegou uma pequena pedra do chão e a colocou sobre a mesa.

— Imagine que dentro dela exista uma joia.

— Certo.

— O que precisa acontecer para que a joia apareça?

— A pedra precisa ser quebrada.

— Não.

— Não?

— Apenas desbastada.

Baltasar permaneceu em silêncio.

— Então a joia já estava lá?

— Sempre esteve.

— E a pedra?

— Apenas a escondia.


O vento continuava assoviando.

Talvez mais suave.

Talvez mais sábio.

Ninguém saberia dizer.

Então Baltasar perguntou:

— O que a joia deseja?

Aurélio observou a pedra sobre a mesa.

— Deixar de ser pedra.

— E a pedra?

— Nem sabe que é joia.


Os dois ficaram em silêncio por longo tempo.

Até que Baltasar voltou a falar.

— Passamos a vida enchendo uma carroça.

— Sim.

— Dinheiro.

— Sim.

— Títulos.

— Sim.

— Reconhecimento.

— Sim.

— Medos.

— Também.

— E se estivermos enganados?

Aurélio sorriu.

— Em quê?

— E se a vida não for encher a carroça?

— Continue.

— E se a vida for descobrir o que merece permanecer nela?

Aurélio ergueu a taça.

— Agora estamos nos aproximando.


O relógio parado continuava sobre a mesa.

A mãe continuava observando.

O vento continuava assoviando.

E a noite continuava falando.

Então Baltasar fez a última pergunta.

— E se desbastarmos tudo?

— Tudo?

— O ego.

— Sim.

— A vaidade.

— Sim.

— O orgulho.

— Sim.

— As máscaras.

— Sim.

— Os excessos.

— Sim.

— As explicações.

— Sim.

— As metáforas.

— Sim.

— Tudo.

Aurélio olhou para o relógio.

Olhou para o retrato da mãe.

Olhou para o céu.

Olhou para o vento.

E respondeu:

— Restará apenas aquilo que sempre esteve ali.

— O quê?

Aurélio sorriu.

Um sorriso antigo.

Sereno.

Como quem finalmente reconhece algo que procurou durante toda a vida.

E respondeu:

— Quem observa.

Baltasar permaneceu em silêncio.

Não porque não tivesse o que dizer.

Mas porque finalmente compreendeu.

A joia não precisava ser criada.

O ouro não precisava aprender a brilhar.

O silêncio não precisava produzir sons.

A essência não precisava ser construída.

Tudo aquilo já existia.

Precisava apenas ser revelado.

O vento continuou assoviando.

A noite continuou falando.

E a dança nunca parou.

Porque o vento nunca deixou de assoviar.


Temas abordados nesta reflexão

  • O tempo e a passagem da vida
  • A relação entre ego e essência
  • O autoconhecimento como processo de revelação
  • A sabedoria adquirida com a idade
  • A observação como ferramenta de compreensão
  • A filosofia estoica aplicada ao cotidiano

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