A Palhaça

 

a mulher tem duas armas, lágrimas e maquiagem.
A Palhaça - O Que Nunca se Deve Tirar de Uma Mulher

Na agenda da família, havia um compromisso importante. Bem cedo. Anos 1980.

Minha mãe, certa de ser a melhor companheira, antecipou-se. Foi ao cabeleireiro um dia antes e passou horas sob o capacete de secador.

Estava feliz. Jovem e bonita. A vida, aos seus olhos, estava completa. Tinha família. Um lar. Uma carreira que construiu com as próprias mãos: professora de letras, escritora, poliglota, psicopedagoga – e dona de um português impecável. Nada herdado; tudo suado. Um currículo que, para aquele evento, funcionava como alicerce social. Meu pai, erudito, seria o escudo dela. Ou deveria ter sido.

Foi a primeira a se levantar. Fez o café. Banhou-se. Vestiu o tailleur. Borrifou o perfume. Pôs as joias. Maquiou-se com sobriedade. Digna de uma dama.

Ao vê-la cruzar a sala, meu pai fitou-a dos pés à cabeça – como quem analisa uma obra de arte – e proferiu uma única frase.

— Você está parecendo uma palhaça.

Silêncio. Todos esperavam uma sinfonia de elogios; o que veio foi o estalo seco de uma chicotada.

Paralisada, o olhar vívido, apagou-se.

Sentiu no estômago um nó molhado – desses que, quanto mais se tenta desatar, mais se apertam.

A frase não desmoronou uma pessoa. Implodiu um casamento.

Ela me olhou. Os olhos marejaram, e o rímel escorreu – fino, preto, cortando o rosto como uma rachadura. Na minha frente, estática, desfez-se.

Eu também chorei. Chorei pela cena, porque nunca imaginei que meu pai – erudito, senhor de verdades – usasse, justamente, a arma de minha mãe, as palavras, para feri-la. E ainda por cima, na minha frente. Chorei porque ela era maior do que ele, mas naquele instante ser maior era torná-lo menor. E eu, ali, mudo, carrego até hoje a rachadura que se abriu naquele rosto.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Explicando o poema Canção do Tamoio

O Mercado Imobiliário Mudou: O Que Você Precisa Saber O Conceito de Wellness (Bem-Estar)

Livro Miguel Costa um herói brasileiro